Bianca Mirabili, melhor confeiteira da América Latina, acaba de receber o título concedido pelo prêmio The World’s 50 Best de 2025, coroando a trajetória da paulistana de 29 anos à frente da confeitaria do Evvai, um dos raros restaurantes da região a ostentar três estrelas no Guia Michelin.
A profissional que hoje domina técnicas precisas já tentou, no início da faculdade de Gastronomia, manter distância das sobremesas. “Sempre fui formiguinha, mas achava que seguir receita à risca seria limitante”, recorda. O destino, porém, colocou-a em estágios justamente nesse setor — primeiro no Fasano e depois no restaurante Salvatore Loi, onde percebeu o encanto de ver a reação do público ao provar suas criações.
Bianca Mirabili, melhor confeiteira da América Latina
Quando o Salvatore Loi se transformou no Evvai, em 2017, o chef Luiz Filipe Souza — então pupilo de Loi e hoje parceiro de Bianca também na vida pessoal — a convidou para assumir o posto de auxiliar de confeitaria. “Eu dizia que ainda era estagiária, mas ele insistia que eu já era confeiteira”, conta. A partir daí, a carreira deslanchou, sustentada por disciplina, pesquisa e a pressão constante de uma cozinha de alto nível, algo que ela garante apreciar.
Criações que marcam o paladar
A virada criativa aconteceu com o pão de mel feito exclusivamente com méis de abelhas nativas brasileiras. A busca por sabores autênticos rendeu outras combinações ousadas, como o Coco-liflor, união de coco fresco, couve-flor e chocolate branco de milho caramelizado, servido em uma apresentação monocromática que desafia o cliente a distinguir os ingredientes pelo paladar.
Outra sobremesa de destaque, a Mandioca, mescla referências nacionais e a técnica japonesa do kintsugi. O prato parte do bolo Souza Leão, patrimônio imaterial de Pernambuco, sobre camadas de mousse de baunilha do Cerrado, caramelo toffee de tucupi negro e sorvete da mesma baunilha, finalizado por uma calda que integra todos os elementos.
Rotina intensa e responsabilidade tripla estrela
Nem tudo é doce: horários estendidos e ausência em reuniões familiares fazem parte da rotina. Bianca lembra que foi alertada pelo pai, técnico de manutenção de fornos, sobre o calor e a falta de tempo livre que o ofício impõe. “Gosto da pressão; escolhi cozinha por causa dessa movimentação rápida”, reforça.
Com a terceira estrela Michelin para o Evvai, a responsabilidade aumentou. “Representa maturidade para o trabalho que construímos ao longo de anos”, afirma. O reconhecimento internacional também fortalece a confeitaria brasileira, cuja imagem, segundo ela, vai além de leite condensado e brigadeiro — ingredientes que, aliás, continuam presentes em momentos de folga, mas ganham releituras no menu do restaurante, como o brigadeiro de tomate com basílico que conecta Brasil e Itália.
Imagem: Juliana Prim
Influências familiares e equilíbrio entre casa e trabalho
Neta de italianos por parte de pai e espanhóis por parte de mãe, Bianca encontra no conceito oriundi do Evvai — que homenageia a cozinha dos imigrantes — um espaço natural para explorar suas raízes. Fora do restaurante, aprecia clássicos familiares, como a feijoada da avó e o churrasco do pai. Sobre o relacionamento de seis anos com o chef Luiz Filipe, ela ri: “Ele manda no restaurante e eu mando em casa, e assim tudo funciona”.
O reconhecimento de 2025 consolida a trajetória de quem começou relutante na confeitaria e, hoje, vê na precisão técnica o caminho para liberdade criativa. Bianca promete continuar pesquisando ingredientes nacionais para surpreender paladares e reforçar a identidade gastronômica do país.
Para saber mais sobre talentos e histórias inspiradoras, visite também nosso conteúdo de Beleza e Estilo e continue acompanhando nossas publicações.
Foto: Tadeu Brunelli


