Abuso sexual deixou marcas profundas em Paula*, Gabriela* e Maria*, mas não impediu que elas reconstruíssem a relação com o próprio corpo e com o prazer. As três brasileiras contam que, com apoio psicológico e diálogo, conseguiram transformar medo e culpa em autonomia.
Os relatos evidenciam bloqueios comuns entre sobreviventes: dificuldade de confiar em parceiros, vergonha do próprio corpo e sensação de ameaça durante a intimidade. Especialistas afirmam que tais reações estão ligadas à forma como o sistema nervoso processa experiências traumáticas.
Abuso sexual: mulheres relatam reconstrução da vida íntima
Aos 30 anos, Paula reconhece que o desejo de permanecer virgem até os 21 escondia o pavor de reviver o ataque sofrido na infância. Sessões de terapia, inclusive hipnose com regressão, ajudaram-na a compreender que “o abuso não a define” e que o prazer faz parte da saúde. Hoje, ela fala abertamente sobre sexo e não se cala diante de dúvidas ou tabus.
Gabriela, 26, passou por fases opostas: inicialmente banalizou encontros, depois veio o receio intenso. A psicóloga Laís Melquiades explica que evitar o sexo ou buscá-lo compulsivamente são respostas complementares ao trauma, tentativas inconscientes de lidar com a dor emocional. Segundo ela, a hipervigilância na intimidade muitas vezes impede o corpo de relaxar o suficiente para sentir prazer.
Maria, 27, descobriu que redescobrir a própria sensualidade começava fora do quarto. “Comecei usando lingerie só para mim e tirando fotos que ninguém via”, diz. Aprender a expressar preferências — posições, ritmo, pausas — foi outro passo essencial para que se sentisse à vontade com parceiros.
Efeitos de longo prazo e estratégias de recuperação
Estudo de 2021 da Universidade de São Paulo identificou que 22% das mulheres com disfunção sexual haviam sofrido violência em alguma fase da vida. Entre os sintomas mais relatados estão baixa libido, dor na relação e dificuldade para atingir orgasmo. Esses quadros podem aparecer meses ou décadas após o episódio.
Para reverter o quadro, Melquiades recomenda combinar gestos ou palavras de segurança antes da relação, hábito que devolve controle à vítima. Também sugere reconstruir intimidade além do sexo: toque, afeto e conversa sinalizam que proximidade não significa perigo. Em casais, a terapia focada em trauma é indicada; quem está solteira pode investir no reconhecimento de gatilhos e na conexão com o próprio desejo.
Não existe prazo universal para retomar a vida sexual, reforça a especialista. Algumas mulheres reaprendem rápido, outras levam anos ou redefinem totalmente o conceito de intimidade. “Nenhum caminho é errado”, conclui.
Imagem: Divulgação
Para saber mais sobre os impactos do trauma e métodos de recuperação, a Organização Mundial da Saúde oferece diretrizes detalhadas (WHO).
No Brasil, redes de apoio, terapia individual e grupos de sobreviventes têm sido fundamentais para que histórias como as de Paula, Gabriela e Maria terminem em autonomia e prazer, não em silêncio.
Se você ou alguém que conhece enfrenta dificuldades similares, busque ajuda profissional e informe-se sobre seus direitos. Reaprender a sentir prazer é possível e faz parte do processo de cura.
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Crédito: Reprodução/Marie Claire


