Autismo feminino: especialista alerta para diagnósticos em alta

Autismo feminino: especialista alerta para diagnósticos em alta vem à tona após novas estatísticas brasileiras mostrarem 1 milhão de mulheres com transtorno do espectro autista (TEA) e salto de 44% nas matrículas escolares de alunos com TEA entre 2023 e 2024.

A britânica Francesca Happé, professora de neurociência cognitiva do King’s College London e referência internacional no tema, esteve em Porto Alegre para o Brain Congress 2026 e comentou o fenômeno: segundo ela, o aumento decorre da combinação entre maior reconhecimento clínico, expansão dos serviços e também diagnósticos equivocados.

Autismo feminino: especialista alerta para diagnósticos em alta

Para Happé, três fatores agem simultaneamente: a prevalência real pode ter crescido, os sintomas finalmente são notados em mulheres e, ao mesmo tempo, houve banalização dos critérios. “Qualquer pessoa com dificuldades sociais se identifica em parte das descrições do espectro”, afirmou.

Redes sociais impulsionam o autodiagnóstico

Segundo a pesquisadora, conteúdos virais sobre hipersensibilidade a sons ou contato visual levam internautas a se autodeclararem autistas sem avaliação profissional. A demora por consultas especializadas reforça a convicção do leigo e aumenta a frustração quando o laudo não confirma o transtorno. Happé defende mais clínicas capazes de diferenciar TEA de condições como TDAH ou traumas.

Desafios únicos do autismo em meninas e mulheres

Historicamente, estudos baseados em perfis masculinos geraram subdiagnóstico em garotas. Muitas recorrem à camuflagem: imitam comportamentos sociais e ensaiam respostas para parecer neurotípicas, chegando à idade adulta sem suporte adequado. Outra armadilha é a “sombra diagnóstica”, quando profissionais priorizam ansiedade social ou anorexia e ignoram o espectro — 20% das pacientes tratadas para transtornos alimentares também atendem aos critérios de TEA, mesmo após a recuperação do peso.

Consequências do subdiagnóstico e da falta de apoio

Sem diagnóstico, mulheres costumam acumular tarefas domésticas e profissionais, situação que favorece o burnout. Elas também ficam mais vulneráveis a relações abusivas, pois nem sempre percebem limites saudáveis. Estudos internacionais, como o divulgado pela Organização Mundial da Saúde, mostram índices superiores de violência física e sexual contra mulheres autistas em comparação com a população geral.

Gravidez, menopausa e outros pontos ainda pouco estudados

Happé lembra que lacunas científicas persistem: alterações hormonais intensas, como as da gravidez ou da menopausa, podem ser especialmente desafiadoras para quem tem dificuldade de reconhecer sinais internos do corpo (interocepção). Maternidades e serviços de saúde, portanto, ainda carecem de adaptações que considerem a neurodivergência.

Para a professora, a solução passa por ampliar serviços públicos e privados, capacitar profissionais de saúde mental e divulgar informações responsáveis, evitando tanto o estigma quanto o rótulo precipitado.

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Crédito da imagem: Marie Claire

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