Autocuidado ganhou novos contornos nas redes sociais após um vídeo viralizar no TikTok e no Instagram, colocando em foco a relação entre bem-estar e aparência feminina.
Na gravação, uma norte-americana aparece de roupão, segurando um café, enquanto explica ao marido — que filma a cena — por que precisa de duas horas livres para si. Banho prolongado, sobrancelhas feitas, pernas e buço depilados, unhas cortadas e dentes clareados compõem a lista de tarefas que, segundo ela, ficaram “na janela” desde que se tornou mãe.
Autocuidado vira debate sobre estética feminina
O bom-humor do casal rendeu milhões de visualizações, mas também levantou questionamentos nos comentários: por que a mãe precisa “pedir” tempo ao pai para cuidar dos próprios filhos? E, sobretudo, por que o tão almejado autocuidado esgota-se em rotinas estéticas, deixando de fora descanso, lazer ou socialização?
Uma rápida busca pela palavra no TikTok confirma a tendência. Os principais resultados exibem mulheres com máscaras faciais, toalhas enroladas nos cabelos e descrições de banhos “premium”, incrementados com velas aromáticas e prateleiras repletas de cosméticos. Embora tais práticas possam, de fato, proporcionar relaxamento, críticos apontam que o foco permanece no resultado estético, muitas vezes transformado em performance para as câmeras.
Especialistas em saúde mental lembram que a noção contemporânea de autocuidado difere daquela defendida pela poeta e ativista Audre Lorde. Diagnosticada com câncer, Lorde descreveu o cuidar de si como “autopreservação” em face da mortalidade. No epílogo de “A Burst of Light”, ela enumera pilares como trabalhar no que importa, amar quem está por perto, descansar, observar o mundo, aprender e relatar experiências — um roteiro distante de depilações e clareamentos dentários.
Para a psicóloga clínica Mariana Souza, o fenômeno atual reflete um medo coletivo de envelhecer. “Quando o cuidado é guiado pelo pânico da passagem do tempo, ele se confunde com manutenção estética e perde o caráter de saúde integral”, afirma. A especialista destaca que a pressão recai majoritariamente sobre mulheres, ainda responsáveis pela maior parte do trabalho doméstico e do cuidado com os filhos.
Dados da pesquisa “Tempo de Tela e Bem-Estar”, publicada pela BBC, mostram que usuários passam, em média, 2h27 por dia consumindo conteúdos de estilo de vida. Segundo o estudo, vídeos que relacionam beleza a produtividade tendem a gerar maior engajamento, reforçando padrões estéticos.
Imagem: Reprodução
Enquanto isso, comentaristas do vídeo viral sugeriram alternativas de autocuidado menos voltadas à aparência: cochilos revigorantes, caminhadas ao ar livre e encontros com amigos figuraram entre as práticas mais citadas. As sugestões dialogam com recomendações de profissionais de saúde, que incluem sono adequado, alimentação balanceada e atividade física regular como fundamentos para o bem-estar.
Para muitas mães, no entanto, encontrar tempo para qualquer modalidade de cuidado pessoal continua desafiador. Organizações de apoio à parentalidade lembram que a divisão igualitária das tarefas domésticas e do cuidado infantil é condição básica para que ambos os parceiros possam usufruir de momentos de descanso.
No desfecho do debate, a reflexão de Audre Lorde ressurge como contraponto: “Eu trabalho, eu amo, eu descanso, eu vejo e aprendo. E eu relato.” O trecho serve de lembrete de que autocuidado pode — e talvez deva — extrapolar o espelho.
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Foto: Reprodução/Redes sociais


